Anselmo era só miséria. Assim foi desde sempre; do primeiro grunhido ao último espirro, o pobre homem, quase inseto de tão esquálido, nasceu de um ventre prostituído e morreu sem pai nem puta em uma poltrona acinzentada de tanta tristeza.
Filho da puta sem trocadilho algum, não chegou a conhecer a velha mãe. Pai. Teve dois. Era só miséria. O velho Genésio foi o primeiro. Barbeiro da vila, freqüentador assíduo da casa de mulheres na esquina do único beco da vizinhança, era cliente fiel da profissional mais experiente do ramo e, desiludido da vida após sua concubina ser esfaqueada por um desafeto qualquer, sentiu-se no dever de cuidar do garoto, à época já com uma dúzia de sombrias primaveras completadas.
Sorte ou azar. O fato é que, pouco depois, o menino perdeu o pão e o leite que o barbeiro bêbado prometera no dia em que resolveu abrir as portas de seu casebre. Anselmo, na mais miserável das misérias, voltou às origens. Rua. Beco. Cerca, telhado. Nessa ordem.
Até então, o filho de ninguém – ou de todos – nunca havia passado fome. Arroz, feijão. Músculo de bisteca. Sempre havia alguma alma bondosa que trazia um prato para o pequeno vulto que perambulava pelas ruas. Comida fria. Tanto fazia. Na verdade, Anselmo sequer conheceu um prato quente antes dos quarenta anos, quando, enfim, pôde dividir uma mesa com “colegas” na repartição onde trabalhava. Anselmo era só miséria.
Antes da repartição, do primeiro aluguel e do abandono da mulher, teve outro pai. Dessa vez, interesse em vez de benevolência. O marceneiro, acossado por uma dezena de clientes, precisava de uma mão pra arriscar três ou quatro dedos na serra que estraçalhava os pedaços de pau que mais tarde virariam móveis mal montados e assimétricos. Sorte. Anselmo pulou fora antes que perdesse o pouco que tinha.
Rua. Beco. Cerca. Ia de um lado para o outro nos telhados de zinco, furioso. A vizinhança, em uma mistura de medo, preocupação e curiosidade, conversava pelos cantos e tentava descobrir se o bicho solitário miava ou uivava. Uns juravam ter visto o garoto duelando com gatos e ratazanas maiores que cães. A comida, antes fria, agora se resumia a lixos revirados, destroçados. Só miséria.
O tempo foi passando. A rua e o beco passaram. Anselmo, em uma dessas filas que abraçam quarteirões, conseguiu um emprego. Público. Ganhava miséria. Entre uma condução e outra, conheceu uma mulher também miserável. Anselmo era mais.
Pouco falava. E sentia falta dos ruídos de outrora. Amedrontada pelo funesto marido, Célia partiu, e nunca mais voltou. Mas o eterno filho da puta já não sabia ele próprio se miava ou uivava. Com pouco menos de meio século de vida, desgraçada vida, Anselmo sucumbiu. Ninguém sabe se foi de doença ou de miséria. Acharam-no recostado na gasta poltrona que havia encontrado no velho beco.
Tem gente que ainda diz ouvir os grunhidos e os ruídos dos latões de lixo nas silenciosas madrugadas da vila agora modernizada. Anselmo era só miséria.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Diafragma Aberto
Logo acima do vão da porta, a luz vermelha indicava que alguém trabalhava. Dentro do laboratório, outras três lâmpadas de mesma cor destacavam no escuro dois corpos entrelaçados e nus da cintura pra baixo.
Dez minutos antes, aproveitando a ausência da monitora - de cama por conta de uma conjuntivite galopante - e a saída do folclórico Seu Francisco para um café, um casal concupiscente adentrou a sala quase escondida no corredor do quinto andar. Libidinosos, entraram discretamente na sala escura, acenderam as libertinas lâmpadas e abriram as torneiras que poucos minutos antes enxaguavam fotografias ingênuas. Na cabeça daqueles dois amantes, o som da água escorrendo pela pia abafaria os uivos e gemidos que estavam por vir.
Cegos pela ardência do amor, não pensaram sequer por um segundo que poderiam ser surpreendidos e, rapidamente, despiram somente as roupas que cobriam suas vergonhas. A bancada, onde anteontem haviam assinado uma efêmera lista de presença, agora servia de apoio para os pares de pernas que se esfregavam e se beliscavam, excitando as veias que palpitavam com fúria em seus membros.
Correndo em busca do gozo e de fluidos inesgotáveis, os dois distribuíam mutuamente mordidas e beijos por toda a extensão de seus corpos. As pernas abertas e convidativas abriram-se ainda mais e respingaram prazer no gélido chão de porcelana assim que ele a penetrou. Ligados um ao outro pela volúpia do coito, abraçaram-se e beijaram-se querendo transformar poucos minutos em eternidade.
Nem os cabelos fora de ordem e um pingo de suor no canto do rosto faziam transparecer tamanho prazer que os dois continuavam sentindo fora do laboratório; a extensão do orgasmo perfeito. O som agudo anunciando a chegada do elevador invadiu os ouvidos dos dois, sensíveis pelo gozo. Entraram calmamente e desceram – em silêncio – os cinco andares em êxtase. Deixaram o prédio com as pernas ainda molhadas.
Dez minutos antes, aproveitando a ausência da monitora - de cama por conta de uma conjuntivite galopante - e a saída do folclórico Seu Francisco para um café, um casal concupiscente adentrou a sala quase escondida no corredor do quinto andar. Libidinosos, entraram discretamente na sala escura, acenderam as libertinas lâmpadas e abriram as torneiras que poucos minutos antes enxaguavam fotografias ingênuas. Na cabeça daqueles dois amantes, o som da água escorrendo pela pia abafaria os uivos e gemidos que estavam por vir.
Cegos pela ardência do amor, não pensaram sequer por um segundo que poderiam ser surpreendidos e, rapidamente, despiram somente as roupas que cobriam suas vergonhas. A bancada, onde anteontem haviam assinado uma efêmera lista de presença, agora servia de apoio para os pares de pernas que se esfregavam e se beliscavam, excitando as veias que palpitavam com fúria em seus membros.
Correndo em busca do gozo e de fluidos inesgotáveis, os dois distribuíam mutuamente mordidas e beijos por toda a extensão de seus corpos. As pernas abertas e convidativas abriram-se ainda mais e respingaram prazer no gélido chão de porcelana assim que ele a penetrou. Ligados um ao outro pela volúpia do coito, abraçaram-se e beijaram-se querendo transformar poucos minutos em eternidade.
Nem os cabelos fora de ordem e um pingo de suor no canto do rosto faziam transparecer tamanho prazer que os dois continuavam sentindo fora do laboratório; a extensão do orgasmo perfeito. O som agudo anunciando a chegada do elevador invadiu os ouvidos dos dois, sensíveis pelo gozo. Entraram calmamente e desceram – em silêncio – os cinco andares em êxtase. Deixaram o prédio com as pernas ainda molhadas.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Heresia
Sempre senti atração pelas donzelas.
Apesar da minha índole, imoral e devassa, as pudicas princesas figuram em minha vida como seres que transcendem a realidade; uma harmonia de pernas que, ao mesmo tempo, é ingênua e provocante. Por muitos carnavais duvidei da inocência gratuita que essas raras mulheres delicadamente carregam consigo, mas depois da jovem Marina, finalmente enxerguei; embora escasso, o pudor ainda existe.
Conheci-a em um assalto a banco; situação que seria até cômica, não fosse pelo gordo vigia que foi atingido por quatro tiros na carcaça.
A voz da doce Marina desde o início revelou sua pureza de mulher ainda intocada; “está abafado aqui dentro, não?”. Observação fantástica, pensei; concordei fitando uma pequenina imagem sacra que deslizava em seu busto; simultaneamente grotesco e excitante.
Sucedeu-se o assalto. Em meio à confusão, mal tive tempo de perceber a jovem cristã tentando buscar proteção em meus braços, no entanto, instintivamente, acolhi-a. A respiração da coitadinha, afobada e amedrontada, confirmava sua virgindade indubitável.
Depois do ocorrido, quando já estávamos recuperados do show de horror e retomando nossos respectivos rumos, pedi sem hesitar um número de telefone pra que pudéssemos marcar um encontro, queria comer aquela “freirinha” ali mesmo, fosse onde fosse. Ela, pensativa, retrucou: “não te conheço, você sequer sabe meu nome!”; era verdade, mas e daí? No mesmo segundo, arrisquei uma resposta, “o nome vem junto com o telefone, não?”. Funcionou. Apesar de muito desconfiada, pressionada pelo silêncio, deixou sua inocência derrubar seus receios e acabou cedendo.
Na primeira vez em que liguei, uns dois ou três dias depois, ela mostrou-se acuada e tentou dissimular a idéia; apesar disso, consegui convencê-la a ir tomar um suco numa padaria ali no centro. Como é que pode, convidar uma fêmea desconhecida para tomar um suco. Percebi que talvez uma boceta virgem não valesse tanto, mas preferi tentar mais um pouco.
Encontramo-nos. A conversa foi tão enfadonha que, meia hora depois, inventei um compromisso e desapareci. Ela estava gostando é verdade e, sem pensar muito, disse que queria me ver mais vezes. É claro que concordei e, assim que saí do campo de visão da divina, acendi um cigarro desesperadamente.
Liguei dias depois e fui direto – ou quase – ao ponto; “será que não podemos nos ver aí na sua casa mesmo?”. Óbvio que ela achou uma barbaridade e eu, mais pela esperança de realizar um fetiche dentro de alguns dias do que por respeito, disse que poderíamos nos encontrar novamente na mesma padaria.
Engraçado pra caralho! A coitadinha, sem jeito, pegando a minha mão e dizendo com seus lindos e singelos olhos azuis; “recebi um sinal de deus e ele me fez ver que é com você que devo virar mulher e, se tiver fé, não vou precisar nunca mais conhecer outro homem”. Eu sinceramente não sabia se gargalhava ou saía correndo, que porra de deus é esse que diz um absurdo assim? Além de estimular o coito antes do casório ainda diz que sou ideal para ela, uma pobre moça sem ninguém no mundo. Tenha dó.
Alguns outros encontros depois resolvi tocar novamente no assunto, já estava perdendo as esperanças de que a fornicação fosse acontecer. “E aí Marina, quando é que vamos conhecer sua casa?”. Seu rosto enrubesceu e ela timidamente disse para que eu ligasse; “no fim de semana quem sabe”.
Liguei.
Apesar da minha índole, imoral e devassa, as pudicas princesas figuram em minha vida como seres que transcendem a realidade; uma harmonia de pernas que, ao mesmo tempo, é ingênua e provocante. Por muitos carnavais duvidei da inocência gratuita que essas raras mulheres delicadamente carregam consigo, mas depois da jovem Marina, finalmente enxerguei; embora escasso, o pudor ainda existe.
Conheci-a em um assalto a banco; situação que seria até cômica, não fosse pelo gordo vigia que foi atingido por quatro tiros na carcaça.
A voz da doce Marina desde o início revelou sua pureza de mulher ainda intocada; “está abafado aqui dentro, não?”. Observação fantástica, pensei; concordei fitando uma pequenina imagem sacra que deslizava em seu busto; simultaneamente grotesco e excitante.
Sucedeu-se o assalto. Em meio à confusão, mal tive tempo de perceber a jovem cristã tentando buscar proteção em meus braços, no entanto, instintivamente, acolhi-a. A respiração da coitadinha, afobada e amedrontada, confirmava sua virgindade indubitável.
Depois do ocorrido, quando já estávamos recuperados do show de horror e retomando nossos respectivos rumos, pedi sem hesitar um número de telefone pra que pudéssemos marcar um encontro, queria comer aquela “freirinha” ali mesmo, fosse onde fosse. Ela, pensativa, retrucou: “não te conheço, você sequer sabe meu nome!”; era verdade, mas e daí? No mesmo segundo, arrisquei uma resposta, “o nome vem junto com o telefone, não?”. Funcionou. Apesar de muito desconfiada, pressionada pelo silêncio, deixou sua inocência derrubar seus receios e acabou cedendo.
Na primeira vez em que liguei, uns dois ou três dias depois, ela mostrou-se acuada e tentou dissimular a idéia; apesar disso, consegui convencê-la a ir tomar um suco numa padaria ali no centro. Como é que pode, convidar uma fêmea desconhecida para tomar um suco. Percebi que talvez uma boceta virgem não valesse tanto, mas preferi tentar mais um pouco.
Encontramo-nos. A conversa foi tão enfadonha que, meia hora depois, inventei um compromisso e desapareci. Ela estava gostando é verdade e, sem pensar muito, disse que queria me ver mais vezes. É claro que concordei e, assim que saí do campo de visão da divina, acendi um cigarro desesperadamente.
Liguei dias depois e fui direto – ou quase – ao ponto; “será que não podemos nos ver aí na sua casa mesmo?”. Óbvio que ela achou uma barbaridade e eu, mais pela esperança de realizar um fetiche dentro de alguns dias do que por respeito, disse que poderíamos nos encontrar novamente na mesma padaria.
Engraçado pra caralho! A coitadinha, sem jeito, pegando a minha mão e dizendo com seus lindos e singelos olhos azuis; “recebi um sinal de deus e ele me fez ver que é com você que devo virar mulher e, se tiver fé, não vou precisar nunca mais conhecer outro homem”. Eu sinceramente não sabia se gargalhava ou saía correndo, que porra de deus é esse que diz um absurdo assim? Além de estimular o coito antes do casório ainda diz que sou ideal para ela, uma pobre moça sem ninguém no mundo. Tenha dó.
Alguns outros encontros depois resolvi tocar novamente no assunto, já estava perdendo as esperanças de que a fornicação fosse acontecer. “E aí Marina, quando é que vamos conhecer sua casa?”. Seu rosto enrubesceu e ela timidamente disse para que eu ligasse; “no fim de semana quem sabe”.
Liguei.
- Oi Marina, é o Nelson.
- Oi. – lacônica e amedrontada.
- E aí, como vai ser?
- Olha Nelson, você pode até vir aqui hoje, mas tem um ‘porém’. Eu queria combinar umas coisinhas com você, pode ser?
Fiquei quieto esperando a merda que estava por vir.
- Eu sei o que você quer, e eu vou te dar, mas promete que vai ser delicado? Se eu pedir pra parar, você pára? Jura que não vai desaparecer se não gostar?
- Está bem Marina, está bem. Apareço aí às 8.
Ela deu uma risadinha e disse que me esperaria ansiosamente; acendi outro cigarro e pensei, “É hoje. Aleluia irmãos!”.
Bati à porta na hora combinada e ela, em um vestido azul celestial, me atendeu ofegante. Não parava de falar – ansiosa – de santos e dessa porcaria toda. Até que, percebendo minha impaciência, com um sorriso inocente e inexperiente, acenou que a hora finalmente havia chegado.
Eu - finalmente - conseguiria deflorar aquela menininha cheia de pudor e religiosidade. Queria começar a cerimônia ali no sofá mesmo, mas foi impossível; “tem que ser tudo no quarto”. Nunca havia sido tão tolerante em toda a minha vida. Fomos então para o quarto e começamos a nos despir; metodicamente, nada de espalhar roupas pelo chão, “coloca ali no criado mudo”.
Quando já estávamos nus em pêlo, ela, pronta para a violação e eu, pronto pra realizar meu desejo libertino, enxerguei no espelho que ficava em sua cabeceira um quadro.
Era ele, aquele que transforma água em vinho e, literalmente, é onipresente. Puta que me pariu. Olhava-nos; via com nitidez cada sulco das minhas flácidas nádegas que estavam em sua fuça. Fiquei paralisado e percebi que não conseguiria. Ele me olhava com aquele típico e eterno sorriso maroto, cabelos encaracolados, roupas leves e descoladas.
Sem dizer nada, comecei a me vestir rápido; choviam perguntas com voz chorosa e desesperada e eu continuava calado, atônito.
Marina continuou virgem e intocada, e eu, saindo dali com os cadarços ainda desamarrados, pude vê-la pela última vez; a jovem casta, nuinha, em frente àquele quadro mal pintado, sussurrando “pai nosso que estais no céu...”.
O salvador dela; meu algoz.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Arrivedercci principessa!
Foi muito rápido; acho que nunca saberei dizer com precisão o que aconteceu. Pra ser sincero, preferia não ter sido tomado pela estúpida idéia de “me apaixonar”, que grande merda. Se ao menos se tratasse de um amor platônico, ainda vá lá, mas para meu desespero (como de praxe), foi muito mais verdadeiro do que a minha canalhice poderia sequer imaginar; que fique claro, “verdadeiro” para mim e verdadeiríssimo, sem aspas, para ela.
“Que seja eterno enquanto dure”. Confirmou-se o clichê; eterno foi, mas (in)felizmente já não dura. Quando nos encontramos na cinzenta Curitiba, debaixo de chuva e com os pés na lama, pareceu-nos que a eternidade seria literalmente eterna; engano nosso, ou melhor, engano dela. Descobriu-se o engano dois meses depois, assim que ficou resolvido que minha amada – eu acreditava até então no uso do pronome possessivo para essas situações – iria finalmente partir.
O destino? Rio de Janeiro, cidade maravilhosa. Refleti e decidi permanecer nos arredores de uma provinciana cidade no Paraná. Ela, por sua vez, argumentou que não era tão longe assim; eu assenti com a cabeça mesmo achando um absurdo ela não achar “tão longe assim”. Permanecemos em silêncio por um minuto; eu coçava a cabeça e ela me olhava com cara de cão sem dono esperando alguma reação. Quebrei o silêncio. Já estava plenamente decidido a continuar morando no meu pequeno sítio, onde outrora caminhamos nus, fumando cigarros de palha enquanto o sol se punha. Ela desatinou a chorar e eu, que já havia freqüentado aulas de teatro, me pus a chorar também.
A despedida foi três dias depois e confesso, quase envergonhado, que o momento de dizer adeus foi verdadeiramente triste, sem sequer ter usado qualquer dote artístico. Prometemos manter contato e quem sabe combinar algo no primeiro feriado que aparecesse; “tomar um café”, disse ela com os olhos úmidos. Era óbvio que não tomaríamos café porra nenhuma, mas deixei a pobre menina imaginar qualquer coisa.
Enquanto o ônibus se afastava levando aquela bela e “única” garota para longe, conformei-me sem muita dificuldade com o fato de que aquilo era permanente, acendi um cigarro, fui até o telefone público mais próximo e liguei para uma belíssima jovem de olhos claros que havia conhecido semanas atrás. Chamava-se Anita, era incrivelmente charmosa e prometeu ensinar-me italiano assim que pudéssemos nos encontrar com mais freqüência; o momento havia chegado.
- Boa noite querida, sou eu.
- Buona sera amore. Ela já foi?
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Palomas de mi vida
Sem pedir permissão, tomaram conta das nossas praças, das nossas já sujas ruas, e atormentam nossos já conturbados pensamentos com sua presença suja e fétida. Caros amigos, com vocês, as ilustres pombas gordas do nosso dia-a-dia.
Começou com um versinho, tentou ser poema e terminou em blues. A minor blues.
Suaves curvas de uma pomba
Salientam uma bunda
Pomba gorda, suja e fétida
Sai do lixo furibunda
Um dia escroto caminhando na calçada
Vi doze pombas numa grande pornochanchada
Saíram correndo e só deixaram a carcaça
E um colibri, puto da vida, reclamava:
Pomba gorda, pomba gorda
Vai pra pomba que te pariu
O teu pescoço é sujo de CO2
Bicho nojento vou te afogar no rio
Pomba nojenta onde você foi se meter
Essa sua vida enche o mundo de asco
Pássaro gordo que não sabe o que é foder
Chegou ao ponto de se alimentar de plástico.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
"Desobediência civil"
Hoje é o último dia do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo e apesar de estar um pouco decepcionado por não ter comparecido a quase nenhuma sessão, fiquei extremamente satisfeito com um documentário que vi logo no primeiro dia do festival.
“Hiato”, dirigido por Vladimir Seixas, trata de uma manifestação surpreendente ocorrida no Rio de Janeiro em Agosto de 2000. Para muitos, este episódio já não faz parte das lembranças e para tantos outros, ele nunca chegou a existir de fato.
Em uma sexta-feira pela manhã, pouco mais de 100 sem-tetos, sem-terras e moradores de favelas do Rio foram fazer um passeio no Shopping Rio Sul, muito freqüentado pela alta sociedade carioca.
Ainda a caminho da zona sul, os “manifestantes” foram abordados por PMs e, questionados para onde estavam indo, responderam naturalmente que seria um simples passeio no shopping e exigiram os mesmos direitos de qualquer cidadão; o velho e bom “ir e vir”. É irônico imaginar que os policiais, majoritariamente, são também de classes desprivilegiadas e mesmo assim não conseguem se libertar por um só momento das amarras da profissão para serem solidários a seus semelhantes; neste caso, honravam sua missão e tentavam “proteger” uma classe que os despreza e está muito distante de suas realidades.
Quando os dois ônibus repletos de favelados e sem-tetos finalmente chegaram ao luxuoso shopping, seguranças e policiais começaram a se organizar para prevenir algum possível confronto ou atitude vândala. O que se viu foi o extremo oposto; o povo, que nunca havia pisado os pés em um lugar semelhante, comportou-se de maneira mais educada do que os freqüentadores assíduos e resistiram bravamente a todas as provocações.
Lojas foram fechadas e pessoas mesquinhas desdenhavam sem pudor a presença daquele grupo tão grande e imponente. Todavia, a convicção que havia entre os manifestantes de que os direitos devem ser respeitados independentemente de classe ou cor, fez com que todo o grupo não se abalasse e permanecesse tranquilamente durante o dia inteiro no shopping.
Entraram em lojas, admiraram-se nas vitrines, vestiram roupas que sabiam não poder comprar e até lancharam pão com mortadela trazido de casa na praça de alimentação. Enfim, passearam e conheceram de perto um mundo que só haviam visto intermediado por algum meio de comunicação de massa.
Visto por uma ala conservadora, o ato foi nada mais que uma forma de desobediência civil. De qualquer forma, coragem e consciência social fizeram com que todas essas pessoas decidissem mostrar a uma parcela da sociedade que, embora não aparente, existe nos morros gente que sabe o que pensa.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Espere sentado, ou você se cansa...

Dias atrás, lendo uma notícia ou outra na Folha Online, acabei tomado por um susto filho da puta e, infelizmente, justificável. Peguei meu celular, já amarelado de tão velho e surrado, e me pus a fazer contas.
O resultado é desesperador, e pior, não parece ter qualquer solução prática até o momento. Estima-se que 40.000 novos veículos passaram a circular na cidade de São Paulo só nos últimos 6 meses. Fazendo as contas, desta vez com uma calculadora de verdade para ter certeza da caótica situação em que estamos, são cerca de 220 novos escapamentos e buzinas a mais por dia.
Não é, de fato, muito fácil imaginar o que esse número representa. Por algumas vezes, nos iludimos e pensamos, irresponsáveis, que em uma cidade de dimensões tão grandes, essa quantidade absurda de lata ambulante acaba se diluindo e vira algo pouco significativo.
Por outro lado, ao pegar um ônibus em qualquer avenida mais movimentada no tão discutido e repudiado “horário de pico”, somos dominados por uma sensação de impotência e ódio. Não raro, desconhecidos desabafam entre si, espremidos, e reclamam com tristeza da situação em que estão.
O Estado propõe medidas, elitistas na sua grande maioria, e o povo continua em pé, esperando...
É razoável também ressaltar que colocar o trânsito paulistano como o problema social número um da cidade seria de uma insensatez sem tamanho. Há inúmeras outras questões muito mais graves para serem resolvidas e que, embora não tão perceptíveis no dia-a-dia do cidadão comum, são de suma importância para uma possível melhoria futura. No entanto, o trânsito continua, e continuará trazendo descontentamento para a grande maioria enquanto medidas efetivas e verdadeiras não forem propostas e finalmente tomadas.
Enquanto isso esperamos, sentados ou em pé, apertados pela rotina.
O resultado é desesperador, e pior, não parece ter qualquer solução prática até o momento. Estima-se que 40.000 novos veículos passaram a circular na cidade de São Paulo só nos últimos 6 meses. Fazendo as contas, desta vez com uma calculadora de verdade para ter certeza da caótica situação em que estamos, são cerca de 220 novos escapamentos e buzinas a mais por dia.
Não é, de fato, muito fácil imaginar o que esse número representa. Por algumas vezes, nos iludimos e pensamos, irresponsáveis, que em uma cidade de dimensões tão grandes, essa quantidade absurda de lata ambulante acaba se diluindo e vira algo pouco significativo.
Por outro lado, ao pegar um ônibus em qualquer avenida mais movimentada no tão discutido e repudiado “horário de pico”, somos dominados por uma sensação de impotência e ódio. Não raro, desconhecidos desabafam entre si, espremidos, e reclamam com tristeza da situação em que estão.
O Estado propõe medidas, elitistas na sua grande maioria, e o povo continua em pé, esperando...
É razoável também ressaltar que colocar o trânsito paulistano como o problema social número um da cidade seria de uma insensatez sem tamanho. Há inúmeras outras questões muito mais graves para serem resolvidas e que, embora não tão perceptíveis no dia-a-dia do cidadão comum, são de suma importância para uma possível melhoria futura. No entanto, o trânsito continua, e continuará trazendo descontentamento para a grande maioria enquanto medidas efetivas e verdadeiras não forem propostas e finalmente tomadas.
Enquanto isso esperamos, sentados ou em pé, apertados pela rotina.
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